Para hoje, um texto louco, espontâneo, errante e vibrante, que talvez poucos entenderão.
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Uma das coisas que mais me fascinam na cultura do futebol é a autenticidade, geralmente fundamentada através da mais pura expressão popular. Popular no sentido mais amplo, de toda a população, do rico e do pobre, do negro e do branco. Iniciativas autênticas e espontâneas, embebidas dos mais nobres valores, como saúde, diversão, amizade e união. Nos primórdios desse esporte, amigos reuniam-se e fundavam um time. Amigos de rua, de colégio, de trabalho, de crença.
Nasceu elitista, é verdade, como boa parte dos esportes, senão a grande maioria. Mas pouco demorou para o povo dar-se o esforço de escalar as árvores para assistir a uma partida. Não muito longe dali, um pivete inventava uma bola de meia e a jogava para o meio de uma rua estreita de um subúrbio londrino. Em meio às nubladas mazelas urbanas, a amizade corria atrás da bola e coloria infâncias.
Antes do jogo, tal como um exército, convocam-se os soldados pelo grito do general. Mas o general não é o mais forte, mais inteligente ou mais corajoso. É só o dono da bola... O exército não tem armas. A ponta de lança é um dedão sujo. O que mais fere é o chão irregular. A militância não tem fardo camuflado ou artigos de defesa. Às vezes, até de pés descalços estão. Mesmo que o sol arda o piso, mesmo que o gelo acaricie a pedra.
A sua bandeira não tem o dever de ser coerente com a realeza, com a religião ou com partido político. Vão nela as cores de seu gosto. Não possuem "rabo-preso" com poderes superiores ou têm objetivo de agrado à torcida. Não. Eles fazem o que gostam e o que querem.
Por isso é tão fascinante o futebol. Por isso tão fascinantes os times. É a expressão autêntica do povo. Não há reis, não há modas, não há espelhos. No mundo dos clubes, a fantasia torna-se realidade. E porque não, portanto, a realidade se torna fantasia?
Do navio sueco que passou pelo porto de Buenos Aires, surgiu o Club Atletico Boca Juniors, com as cores carnavalescas do bairro mais dançante da cidade. Em São Paulo, Corinthians e Palmeiras realizam um derby agaroado, nublado. O branco e preto corintiano retrata com fidelidade a pálida periferia paulistana. Nem mesmo o verde do Palmeiras tenta ser vivo. É sujo, opaco, com as marcas do esforço de imigrantes que ajudaram a construir uma metrópole. No Fluminense, vê-se as cores de uma elite poderosa e intocável, que aprecia com tempo de sobra as belezas da maravilhosa cidade. Já o Flamengo explicita o calor. De um povo que se reúne com a naturalidade de quem nasce, dança os olhares e sente os cheiros de um samba de rua que exala suor de amor.
Qualquer coisa além disso, é exagero. Como milhões na conta de um jogador. Torcidas armadas. Clubes-itinerantes de empresários comprando torcedores para vender um produto. Falso. Vazio. Superficial. Passageiro. O futebol pode ser a imagem mais fiel de nossa realidade. A realidade dos nossos sonhos, realidade inconsciente. Talvez a mais bela. Não deturpe-o, não seja covarde. Seja autêntico, sincero, corajoso. Viva o que é digno de ser vivido. Com amizade e sensibilidade. Isso é futebol.